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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O ENCONTRO ENTRE CABO ALFREDO E O DITADOR PERÓN NO AMAPÁ


Memória
CABO ALFREDO E O DITADOR PERÓN

Professor, advogado e politico, aposentado pelo Ministério da Justiça. ALFREDO OLIVEIRA, ou simplesmente CABO ALFREDO, nasceu em Bonfim, na Bahia, em 13 de outubro de 1921. Obteve  posto de cabo durante a Seguranda Guerra Mundial, quando serviu  na Ilha Grande, no Rio de Janeiro. De lá seguiu para o arquipélago de Fernando de Noronha. Terminada a guerra, periodo no qual concluiu o curso de Educação Fisica, foi exercer a profissão no então Territorio do Amapá, que foi sua casa por mais de 50 anos, antes de chegar ao Pará.

No Amapá, Cabo Alfredo exerceu 16 cargos publicos, entre os quais os de prefeito dos municipios de Calçoene, Mazagão e Macapá, este por duas vezes. Mas foi no Pará, na Transamazonica, que Cabo Alfredo viveu o que considera sua maior desafio na vida: o desbravamento de grande parte da floresta amazônica.

Também ficou famoso o encontro entre o Cabo Alfredo e o ex ditador argentino Juan Domingo Perón, na Base Aérea de Amapá, durante rota de fuga. O jornalista Euclides Farias, numa postagem de 2 de abril de 2012, no blog do Chico Terra, assim se referiu sobre o episódio que ficou para a história do município de Amapá:

“O motor do Douglas C-47 roncava alto procurando força e a custo conseguiu aterrissagem na base aérea construída na Segunda Guerra Mundial na minúscula e perdida cidade de Amapá, no então Território Federal do Amapá. Era setembro de 1955. Da aeronave desceram o piloto, uma aeromoça e um mito. O avião, emprestado com tripulação pelo ditador paraguaio Alfredo Stroessner, fez o pouso forçado por falta de combustível. Perto dali, o cabo Alfredo Oliveira atendeu a um estafeta e teve que interromper a aula de produção de farinha na escola agrícola do lugarejo para atender a ilustre desconhecido.

·         Bom dia, eu sou o general Juan Domingo Perón.
·         Bom dia – retrucou o cabo, sem atinar para o nome ou relevo do interlocutor. – O que vosmecê deseja?

Começou assim a saga do deposto presidente argentino em plena floresta amazônica, em sua rota de fuga à Nicarágua, segundo o relato feito pelo próprio Alfredo Oliveira, hoje advogado aposentado que, aos 85 anos, vive em Belém, à repórter Aline Monteiro, do jornal O Liberal. Diante das fotografias em que aparece ao lado de Perón já amarelecidas pelo tempo, ele concordou em remexer a memória depois de assistir a baderna que marcou o segundo funeral de Perón, na cidade de San Vicente, na Grande Buenos Aires.

Diz que, com exílio negado pelo Brasil, o máximo que Perón conseguiu, desde que decolou da pista paraguaia e entrou no espaço aéreo brasileiro, foram paradas técnicas para abastecer o avião, ganhar suprimentos e seguir em frente. Uma imprecisão no relato de Alfredo sugere que Perón, em fuga, ocultou o verdadeiro destino. Saindo de Assunção, em linha reta, Manágua fica fora de rota para quem vai à Espanha, onde de fato o general se exilou. O Amapá, sim, fica a caminho de Madri. Por isso menos provável, outra hipótese é que, antes de atravessar o Atlântico, ele tenha pensado em pedir guarida política à Nicarágua.

O fato é que sem auxílio imediato para prosseguir a viagem o general pernoitou na casa de Alfredo. Isso depois de o precavido anfitrião, que lutara na Segunda Guerra e soubera pelo próprio Perón das restrições das autoridades brasileiras, comunicar e obter do governador amapaense Amílcar Pereira a autorização para oferecer abrigo. Foi então que um pedaço da história da Argentina sentou praça e se descortinou naquele lugar ermo.

Alfredo desenha Perón como um homem educado, mas nervoso pelos acontecimentos em seu país e pelo contratempo aeronáutico. Fumante emérito, o general descontava no cigarro. “Na hora de comer, era uma colherada e uma tragada”, recorda. Nas fotografias, o tabagismo de Perón é flagrado em profusão. “Sempre havia”, conta Alfredo, “um cigarro entre os dedos, aceso ou não”. Ficou, também, a impressão de um Perón amargo com o golpe militar que sofrera, depois de ter chegado ao poder por meio de um.
Ex-pracinha e com amizades na base aérea, Alfredo pôs o C-47 de novo no ar com gasolina arranjada de um piloto. Um mês depois, o gesto teria a gratidão de Perón, em carta escrita de próprio punho. Na correspondência, de 11 de novembro de 1955, o general derramava-se: “A hospitalidade que recebemos nesta terra nos força a uma eterna gratidão! Somos todos irmãos! Se pratica no Brasil, em toda a sua plenitude, a nobreza dos homens bons”.



Na lembrança do velho cabo não há sequer resquício do mito, hoje ainda capaz, 55 anos depois do pouso forçado no Amapá e 36 de sua morte, de gerar sangrento pugilismo entre seus fanáticos seguidores das facções militar e operária. “Era um homem comum”, engana-se o bom Alfredo.”

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